[+18] As Lendas do Destino – O Executor

derrick executor nioh

Algo que eu não havia mencionado ao criar esses artigos é que tentarei ao máximo seguir a cronologia dentro do próprio jogo, ou seja, irei desenvolver esses artigos com base naquilo que nos é apresentado durante o jogo. Eu não havia explicado isso logo no primeiro artigo sobre William Adams, porque o próprio artigo quebra um pouco, essa ideia já que para explicar a história do protagonista, era inevitável explorar diferentes momentos da sua história, antes, durante e até para além do que é apresentado durante o jogo.

Outro momento em que essa cronologia será quebrada é se eu achar necessário um tempo adicional para pesquisar sobre determinado assunto, já que como mencionado no artigo anterior, nem tudo que é apresentado em Nioh, tem como base exatamente aquilo que é apresentado no jogo e da maneira como é apresentado.

Um último aviso para aqueles que forem ler, é que artigos que eu considerar ter conteúdo improprio para menores ou pessoas sensíveis irão receber um Tag +18 ou no caso de algum conteúdo dentro do texto não ser muito indicado para essas pessoas irá sempre haver um aviso. Caso seja menor de idade ou sensível e tenha chegado aqui mesmo assim, deixo um aviso extra de que não é indicado para ti o texto a seguir.

Explicações dadas, vamos para aquele que pode ser considerado o primeiro chefe/boss do jogo, Derrick the Executioner. A luta contra Derrick é uma das mais fáceis de todo o jogo e serve muito para o jogador começar a se habituar aos controles e estilo de combate do jogo.

A primeira fase enfrentamos uma versão ainda humana do personagem, não sendo necessário um grande esforço para o derrotar, Já na segunda fase, enfrentamos a sua versão “corrompida” onde ele aumenta consideravelmente de tamanho, ganha muito mais força e assume características de um Oni com chifres, espinhos espalhados pelo corpo e uma movimentação muito mais bestial.

E é justamente após o derrotar que toda a jornada de William Adams tem início, de uma maneira até bem semelhante ao que aconteceu na vida real.

Porém, muitos que jogaram podem questionar? Esse tal Derrick é alguém real? A levar em consideração que ele é o primeiro boss, porque a apresentação dele é até banal? A resposta a primeira pergunta é um sim, ele realmente existiu. A resposta a segunda pergunta…

Na nossa realidade ele se chamava, Thomas Derrick. Entretanto, a sua fama não vem através de glórias (muito pelo contrário até), ele não ficou conhecido por ter sido um grande herói, ele não vem de uma família abastada, a sua história não é longa e complexa, ele, na verdade, foi apenas como no retratado no jogo, um executor. Mas calma, que apesar da história não ser longa e nem tão cheia de detalhes como as três anteriores, há alguns detalhes interessantes e alguns questionáveis.

Não há muitos registros sobre, Derrick, então não há como saber quando e onde exatamente nasceu ou sobre a sua história antes de entrar para o sistema criminal. Mas durante o período elisabetano ou período isabelino, que foi o período de reinado da Rainha Isabel I de Inglaterra (1558-1603), Derrick foi preso pela violação/estupro e posteriormente morte de uma mulher.

Entretanto, recebeu uma proposta difícil de recusar dada as circunstancias. Poderia escapar a morte se troca-se a sua vida pela de alguns milhares ao se tornar um executor ou como também é popularmente conhecido carrasco.

Essa oportunidade lhe foi dada por Robert Devereux, 2º Conde de Essex e conhecido como o “favorito” da Rainha Isabel I de Inglaterra (aconselho a guardar especialmente essas informações, pois, haverá um plot twist daqui a pouco).

Derrick então passou a exercer a sua nova “profissão” em Tyburn, uma vila no condado de Middlesex, próximo a onde nos dias atuais está localizada Londres, sendo um lugar bem conhecido na época justamente pelas suas execuções.

E o que acontece quando se dá uma arma na mão de quem gosta de utiliza-la? Ele a utiliza muito bem! E foi exatamente isso que Derrick fez, durante a sua carreira, ele ficou conhecido por ter executado mais de 3 mil pessoas…(e agora vem o Plot Twist)incluindo o próprio Robert Devereux, que foi executado  em 1601 devido a uma acusação de traição contra a própria Rainha.

Porém, ao contrario do que acontecia na maioria dos casos, Thomas Derrick não foi esquecido com o passar dos anos e nem ficou conhecido como só mais um executor de Tyburn, ele ficou para a história por alterar o método como eram feitas as execuções e provavelmente ele influencia a maioria de nos até hoje.

Até então nessa época as execuções eram feitas atrás de um método extremamente arcaico, onde uma corda era passada por uma haste e a vítima era enforcada. Mas esse não era um método infalível já que todo o peso da vítima estaria sendo suportado pela haste, e ao contrario do que acontece em alguns romances, essa não era uma morte imediata em todos os casos e a vítima lutava muito pela vida, ou seja, nem sempre a corda ou a própria haste aguentava a carga.

Para além disso, nem todos que iriam ser executados ficavam tempo suficiente preso para perder algum peso, o que significava que a própria preparação para a execução, não era das tarefas mais fáceis. Ele então criou um sistema de roldanas, semelhantes ao que hoje é utilizado em guindastes, que permitia uma melhor divisão no peso da vítima, o que retirava algum peso das cordas e hastes, além de facilitar a preparação para a execução. Ainda assim não era um método infalível, mas ajudou em algumas execuções.

Essa foi a vida de Thomas Derrick, um homem que ninguém sabe a sua origem, que cometeu dois crime que até para a época eram considerados graves, teve a oportunidade de sobreviver a morte devido a um perdão dado pelo 2º Conde de Essex, esse que seria acusado no futuro de traição pela Rainha Isabel I de Inglaterra e enforcado pelo próprio Derrick a utilizar um método que o próprio criou e que até hoje ainda permanece vivo na área de movimentações de cargas.

Curiosidades

Derrick é até hoje o nome dado, em inglês, há alguns estruturas que possui um mecanismo semelhante ao criado na época. Esse é nos dias atuais utilizado em guindastes de construção e transporte em docas e até torres de perfuração. Esse tipo de estrutura na época, também foi muito utilizado com o passar dos anos para carregar e descarregar embarcações.

O período elisabetano ou período isabelino, corresponde ao ápice da renascença inglesa, no qual houve a explosão da literatura e poesia no país, o que abriu espaço para o crescimento dos teatros, peças e poetas famosos como William Shakespeare, que começaram a escrever peças que rompiam com o estilo ao qual a Inglaterra estava até então acostumada.

Ele período também ficou conhecido por ter trazer uma breve paz entre os protestantes e católicos, para além das guerras entre o parlamento e a monarquia. Para além disso, o país estava a enfrentar uma época favorável a nível económico, governamental e apesar de nos dias de hoje, haver uma consciência mundial contra a escravidão, essa também foi uma época onde houve uma grande influência da Inglaterra no tráfico de escravos.

Porém, estamos a falar de história e com bem sabemos, nada pode ficar bem por muito tempo. Então menos de 40 anos, após a morte da Rainha Isabel I de Inglaterra, o país imergiu na Guerra Civil Inglesa, que resultou em milhares de mortes e também foi responsável pela Revolução Industrial. Até aos dias atuais não há um consenso no número de mortos, porém, a estimativa é de que a Inglaterra perdeu 3.7% da sua população (mais de 190 mil mortos), a Escócia perdeu 6% (60 mil), enquanto a Irlanda perdeu 41% da sua população (616 mil).

Robert Devereux, 2º Conde de Essex, foi um herói militar e conhecido como o “favorito” da Rainha Isabel I de Inglaterra. A sua fama, é bem ampla e negativa em Portugal, já que durante os conflitos entre Inglaterra e Espanha, ele aproveitou para saquear e vandalizar diversos locais como Faro, onde saqueou e incendiou a Igreja da Sé, além de Faial onde saqueou também diversas igrejas. Para além disso, há quem considere como origem da expressão “amigo de Peniche”, a sua participação e violência praticada pelas suas tropas, quando desembarcou em Peniche.

Essa é uma longa história, mas num grande resumo, em maio de 1589, cerca de 6500 soldados ingleses desembarcaram na praia da Consolação, próximo de Peniche sob o comando de Robert Devereux. Este fazia parte de uma expedição de 140 navios, com mais de 20 mil homens, sob as ordens de Francis Drake (olha ele aqui novamente) e o almirante John Norris, sob ordens de Isabel I de Inglaterra, com o objetivo de colocar D. António, Prior do Crato, novamente no trono de Portugal e restaurar a soberania portuguesa, que na época estava nas mãos da Espanha.

Consolação – Peniche

 

Porém, apesar do aparente sucesso inicial, tudo começou a dar muito errado, com parte das forças inglesas a saquearem diversas localizações portuguesas, falta de resposta dos ingleses aos ataques portugueses (sob ordens da Espanha), traições de alguns portugueses que tinham segundas intenções e um grande cerco em Lisboa (novamente sob ordens da Espanha), que impediu Francis Drake, de completar a sua investida a Lisboa. Devido a isso, a expressão “amigo de Peniche” se refere a um falso amigo, alguém que não merece a confiança, já que Devereux nunca ajudou realmente Portugal.

Mas os portugueses puderam ter um pouco de vingança, quando depois de uma fraca campanha militar em 1599, contra os rebeldes irlandeses durante a Guerra dos Nove Anos, Devereux, decidiu voltar-se contra a Rainha e foi executado por traição, por aquele que tinha “salvo”.

Essa investida de Francis Drake contra Lisboa, não apenas custou muito caro a Portugal que não conseguiu a sua independência na época, mas também teve graves consequências ao próprio Drake que três semanas depois foi atacado por embarcações portugueses e espanholas, tendo o seu galeão chamado “Revenge” tomado pelos espanhóis em 1591 sendo esse alguns anos depois afundado após uma tempestade perto da Ilha Terceira, nos Açores.

O termo carrasco é citada em diversas fontes como tendo origem através do famoso executor português, Belchior Nunes Carrasco.

Apesar da intenção ser justamente a oposta, as execuções em Tyburn são descritas como grandes eventos de entretenimento publico e até algo esperado pelos comerciantes que enchiam as ruas nos dias de execução para vender os mais diversos produtos, para além de trazer uma lucro adicional aos construtores, que erguiam locais especiais para os mais ricos assistirem as execuções afastados dos demais.