As Lendas do Destino – O Fogo da Admiração

kato nioh

Quem me conhece sabe que sou um eterno apaixonado por animais e consequentemente um defensor de todos (mesmo aqueles que eu prefiro ter uma relação não tão próxima), mas se existe um animal que terá a minha eterna paixão e admiração, sem dúvida alguma, esse é o lobo.

Nesse terceiro capitulo, vamos explorar um pouco sobre a mitologia dos lobos no Japão. Mas espera lá, se o capítulo anterior foi sobre o Isonade, e se vamos falar de lobos, na verdade, então o capítulo não será mais específico, ou seja, Kato? É justamente ai que entra a liberdade criativa da Team Ninja.

O Kato extamente da maneira como conhecemos no jogo, um lobo-cão de fogo não existe dentro da mitologia japonesa, existem, na verdade, outras lendas que tentarei explorar um pouco nesse artigo. Também existem as “Kitsunes” ou raposas, mas essas irei fazer um artigo separado quando for falar do “Nine Tails”.

O Kato é um dos três Espíritos Guardiões iniciais, que seria mais indicado para aqueles jogadores que vão construir uma build, nem que seja apenas inicialmente, com foco em força, já que ele proporciona um aumento o poder de ataque.

Durante todo o Período Edo (no qual se passa também o jogo e que foi brevemente explicado no artigo sobre o William Adams) os lobos eram venerados no Japão, já que mantinham animais herbívoros como cervos afastados da agricultura, além de controlar a população de javali da área. Porém, a partir do Período Meji 明治時代 (1867-1912), isso mudou, já que o próprio governo passou a promover outros meios de agricultura e a introdução da pecuária ao estilo norte-americano no país.

Isso mudou completamente a relação e ocasionou conflitos entre os lobos e os humanos já que os lobos, começaram principalmente a atacar o gado. Com isso, foi permitido as pessoas para “protegerem as suas terras” matarem os lobos, através de mais diversos métodos incluindo envenenamento e armadilhas, com inclusive a ser estabelecido um sistema de recompensa por quem extermina-se os lobos daqueles terras. Infelizmente isso levou, a sua total extinção.

Os lobos dentro da cultura japonesa eram venerados de tal maneira, que o povo japonês se referia a eles como ookami 大神 (Grande-Deus) ou Yama-Inu 山尤 (Cães-da-Montanha), devido ao fato desses viverem predominantemente nas regiões montanhosas, o que levou os japoneses não apenas a considerar esses locais como sagrados, mas também a erguerem templos em sua homenagem. Para além disso, esses lobos eram considerados como guardiões sagrados, que cuidavam e vigiavam as montanhas, florestas e os seus habitantes, um relação muito mais próxima e amigável do que, por exemplo, com raposas e texugos.

Inclusive ao contrario das raposas e texugos, os lobos eram considerados como animais nobres, protetores dos humanos, justos e com grande senso de dever e respeito. E é justamente dai que surge a primeira lenda.

O Herói e o Lobo

Uma das lendas mais conhecidas da cultura japonesa, conta que Yamata Takeru, filho do Imperador Keikko e que posteriormente seria conhecido como um grande herói da mitologia japonesa, perdeu-se, enquanto atravessava o Monte Mitake, já que naquele dia estava um denso nevoeiro. De repente, do meio da florestas surgiu um grande lobo branco, que ao invés de o atacar, o guiou para fora da floresta.

Como agradecimento pela ajuda, Yamata Takeru construiu um santuário para o lobo que o ajudou e esse lobo juntou-se aos deuses, sendo então chamado de Oogushi-no-Magami 大 口 真 神 (“O Deus com Grande Boca”), ele então ficou responsável por proteger os campos e florestas, prevenir o fogo, infortúnios e o roubo, além de punir as pessoas ruins. Os santuários em homenagem a Oogushi-no-Magami podem até hoje serem visitados no Parque Nacional de Chichibu.

Protetor e Carrasco

Se há algo que é consenso em praticamente todas as mitologias e crenças, é que a linha entre o bem e o mal é sempre curta e é justamente aqui que surge Okuri-Inu 送り犬 (também conhecido como Okuri-okami 送り狼 uma entidade em forma de cão que seguia os viajantes durante a noite.

As lendas afirmam que um yokai ou criatura, com características de um lobo ou cão, seguia os viajantes solitários pelas estradas, florestas e montanhas, sempre a uma distância segura, mas sem nunca perder o viajante da sua linha de visão. Caso o viajante por algum motivo perde-se o equilíbrio e caísse ao chão, Okuri-Inu seria a última coisa que ele veria, já que seria rapidamente atacado e desfeito em pedaços, porém, caso nada disso viesse a acontecer o viajante teria uma das mais seguras viagens da sua vida, já que nenhum predador ou yokai iria aproximar-se dele.

O curioso dessa lenda, é que sobreviver ao Okuri-Inu era algo praticamente impossível, já que estamos a falar de uma época onde energia elétrica não existia, além disso, o próprio terreno era muito irregular e esses viajantes sempre estavam carregados de itens, algo que tornava praticamente certo eventuais quedas. Mas, existia uma maneira de “enganar” e sobreviver ao Okuri-Inu mesmo após a queda, já que se o viajante consegui-se se recompor antes de ser atacado, esse poderia fingir que não caiu e sim decidiu sentar-se um pouco para descansar, o que não ocasionaria um ataque.

Caso tivesse sorte, ao aproximar-se da civilização, esse viajante deveria agradecer ao Okuri-Inu pela proteção, o que faria com que ele nunca mais o pudesse seguir. Além disso, quando esse viajante finalmente volta-se a casa, deveria lavar os pés e deixar um prato com algo para fora de casa, como uma maneira de agradecer e mostrar gratidão pelo Okuri-Inu ter permitido a ele uma viagem tranquila de volta a sua família.

Filhos dos Lobos

A proximidade entre humanos e lobos, também foi mencionado em diversas lendas que contam que crianças foram adotadas por lobos, assim como mães que após o falecimento dos seus filhos, utilizavam amuletos em forma de lobo para pedir proteção aos corpos dos seus filhos pequenos, para que esses não fossem profanados por nenhuma outra criatura da floresta.

Existe inclusive uma lenda que conta, que num determinado dia uma mulher gravida estava andando pelo floresta quando começou a ter contrações e percebeu que ia ter o filho naquele momento e naquele local. De repente, ela percebeu que estava sendo observada por lobos e gritou “Façam aquilo que tem de fazer, se querem nos devorar o façam logo”, porém, os lobos apenas se mantiveram por perto, até que o marido fosse procurar a sua mulher e filho. Agradecido pela proteção dada a sua família pelos lobos, o homem preparou um grande jantar de comemoração e deixou um prato especial do lado de fora da casa, para os protetores da sua mulher e filhos.

A Natureza Humana (Conteúdo não indicado a menores de 18 anos e pessoas sensíveis)

Essa talvez seja uma das lendas mais tristes e cruéis a envolver lobos no Japão. A lenda conta que existiam shikigami (espírito invocado para servir e proteger) chamado Inugami 犬神. Ele seria uma criatura semelhante a um cão gigante e extremamente poderoso, que seria invocado com o objetivo de servir a um mestre humano, denominado Inugami-mochi. Esses poderiam ser leais a uma pessoa ou família por séculos, e passar de geração em geração, a menos que fossem gravemente maltratados.

Mas onde está a parte cruel disso tudo? Afinal foi dito acima que inclusive, o elo entre o mestre e o Inugami seria quebrado caso houvesse maus-tratos. Não há um conhecimento da origem desse ritual, mas ele foi banido do Japão durante o Período Heian 平安時代 (794-1185) e sabem porquê?

De acordo com as lendas, o Inugami para ser invocado exigia um ritual extremamente complexo e cruel que consistia em enterrar um cão ainda vivo até o pescoço e colocar ao redor dele vários pratos de comida, porém, ele nunca poderia alcançar essa comida, o que levaria o cão a ter uma morte lenta, no qual o mestre deveria repetir sempre algo como “A sua dor não é nada comparada a minha”.

Nos seus últimos dias, o cão então deveria ter a sua cabeça cortada e enterrada num local de grande movimento. O barulho das pessoas, então iria incomodar ainda mais o espírito do cão e faria ele se transformar num Inugami, que se ergueria do chão em busca de comida. O alimento então colocado em volta do cão que havia sido enterrado serviria como uma oferenda de paz para o espírito vingativo do Inugami.

A lenda diz que depois de um certo tempo, a cabeça e o corpo do cão deveria ser levado para um santuário e a partir dai, um Inugami poderia ser invocado sempre que necessário. Outras lendas dizem que a cabeça deveria ser costurada no corpo e ambos mantidos num santuário longe de qualquer outra pessoa.

Devido ao sofrimento do animal, é dito que um Inugami poderia assombrar o seu mestre, além de a depender da relação entre o Inugami e o Inugami-mochi, esse poderia trair o seu mestre, de maneira barbara ao morder ele até a morte ou até mesmo levar toda a sua família a infelicidade extrema.

Para além de servir ao seu mestre de maneira externa, um Inugami também poderia possuir o seu mestre, o que poderia inclusive fazer com que todas as feridas e problemas de saúde fossem curados. Porém, haveriam muitos efeitos colaterais, incluindo dores pelo corpo, ciumes extremo, mudança comportamentais e até o desenvolvimento de comportamentos semelhantes aos de um cão. As lendas dizem que pessoas e animais que morrem enquanto estavam possuídas por um Inugami, ficam com marcas de garras e dentes de um grande cão pelo corpo. Um Inugami também poderia possuir animais, mesmo que não estivesse a servir a um mestre.

Curiosidades

Kato é um Espirito Guardião do elemento fogo.

Caso não tenha escolhido, o Isonade como o seu Espírito Guardião no início do jogo, é possui obtê-lo na missão secundária de nível 31 – Os Três Deuses Furiosos.

Existe uma versão da lenda de Yamato Takeru e do lobo branco, que, na verdade, Yamato não estava sozinho quando perdeu-se e que, na verdade, a causa disso não foi um nevoeiro denso, mas sim um demónio que se transformou num veado branco e obstruiu o caminho.

Quem cresceu assistindo Digimon com certeza lembra do Matt e do Gabumon uma das duplas mais adoradas do anime até hoje pelos inúmeros fãs espalhados pelo mundo. Porém (momento explosão de cabeça) o nome completo dele é Yamato “Matt” Ishida justamente numa referência a Yamato Takeru e qual era a segunda forma do Gabumon?! Justamente Garurumon que basicamente é um lobo branco gigante com marcas azuis pelo corpo. Afinal parece que nem tudo era só por acaso.

Existem teorias de que a palavra Ookami tem como origem a palavra Oogushi-no-Magami.

Nos dias atuais, a palavra Okuri-okami 送り狼, é utilizada para definir homens aparentemente inofensivos e calmos, que perseguem mulheres jovens com promessa de as ajudar, mas que, na verdade, possuem segundas intenções.

Apesar do ritual para invocar um Inugami há muitos séculos ser proibida, acredita-se que ainda hoje, em zonas do Japão mais afastadas da civilização moderna, ainda há pelo menos um mestre que tenha pacto com um Inugami.

Vale lembrar ainda que diversas culturas ao redor do mundo acreditavam que a vida não estava no corpo e sim na cabeça, com isso varias lendas ao redor do mundo tem como base, decapitações que não ocasionavam em morte imediata, com o espírito ou a vida ainda a se manter por alguns segundos, o suficiente inclusive para que a vítima caso humano pudesse dizer as suas últimas palavras.

O episódio 17, da quinta temporada da série norte-americana Grimm, é intitulado Inugami e mostra uma história relacionada com a lenda desse Shikigami.

A propagação da raiva também contribuiu muito para extinção dos lobos no Japão, com os primeiros relatos da doença a serem documentados na ilha de Kyushu e Shikoku em 1732. Apesar disso, há relatos de encontros de pessoas com lobos e pessoas que ouviram uivos vindos da floresta, porém, nada até hoje foi confirmado.

Em 2006 a Capcom em parceria com a Clover Studios lançou Ōkami, um jogo que traz varias referencias as mitologias e lendas japonesas. O próprio protagonista, chamado Ōkami Amaterasu, na verdade, tem como inspiração o grande lobo branco da história de Yamata Takeru, e o Amaterasu 天照 uma das divindades mais importantes da história do Japão e da religião xintoísta. O jogo recebeu uma remasterização em dezembro de 2017 e está disponível para PC, PlayStation 4 e Xbox One.